Em 2024 o mundo experimenta tremores sociais alarmantes. Cresce como não imaginaríamos a desigualdade social, em decorrência da falência de um modelo financeiro, morto pelo seu próprio motor, o rentismo; e em consequência, a precarização das condições de trabalho e das legislações trabalhistas, como vimos no Brasil.
Hirayama é um senhor de meia-idade que acorda antes do Sol nascer em Tóquio. Dobra sua cama em seu microapartamento, se arruma e vai à luta. É faxineiro de banheiros públicos da cidade. Vai de praça em praça, de parque em parque, em uma mini-van de seu trabalho. É metódico: limpa com cuidado e zelo, atento aos detalhes. Leva consigo um pequeno espelho para inspecionar a higiene de vasos e pias.
E é também atento aos detalhes daquilo que o cerca. Em cada pequena pausa de sua dedicada rotina de trabalho, Hirayama nos entrega uma nova faceta de sua personalidade. E aí está talvez o ponto crucial de Perfect Days, a mais nova produção do diretor alemão Wim Wenders. Aos 78 anos, e podendo ter testemunhado mais da metade do século XX, nos apresenta um filme otimista – não no todo, mas na fresta do asfalto aonde pode nascer a flor.
O desenvolvimento da trama se dá sobretudo no signo de uma rotina constante, repetitiva. Talvez uma análise sobre como estamos, cada vez mais, presos em funções e cotidianos alienantes. A filmagem e montagem são documentariais, com câmeras na mão e microfones sensíveis aos sons da cidade. Essa sensibilidade estética ao detalhe das cenas rima com a personalidade atenta e doce de Hirayama.
E é este paralelo, em cenas como nas ajudas aos transeuntes, ou mesmo num jogo da velha duelado ao longo de dias com um desconhecido por um papel guardado na fresta do banheiro, que humaniza a história. Ultrapassamos o estranhamento de acompanhar a rotina quadrada de um funcionário público japonês ao conviver com ela, e assim perceber os afetos criados em momentos corriqueiros.
Perfect Days parece tentar iluminar o cotidiano de uma época marcada por crises econômicas, sociais e psicológicas. Hirayama vive só, fala pouco, gasta boa parte do seu tempo em um trabalho duro e, no tempo livre, lê e ouve música. Mas em alguns momentos, em encontros e desencontros da vida, consegue entregar emoções e lições a audiência.

