Filme no Disco #5 – Phantom of the Paradise

Qual é o preço que você pagaria pelo sucesso? Ou o que faria para manter a juventude da aparência para sempre? Esta temática se estrutura na história da literatura e da dramaturgia na modernidade como pautas filosóficas importantes. Em um período regido pelas relações de consumo, aonde tudo que é visível e material é transmutado em mercadoria, o que ofereceríamos em troca destes desejos? Nossa alma?

Estas são as reflexões de obras clássicas do romantismo, movimento literário marcado por uma visão pessimista e regressista em relação a realidade crescentemente industrializada dos países europeus do século XX. E parece que é nesta raiz histórica que se insere a Phantom of the Paradise (1974), filme dirigido por Brian de Palma como crítica voraz às indústrias da cultura no capitalismo norte-americano daquele momento.

O filme conta a história da inauguração de uma casa de espetáculos em Nova York, a Paradise. Ela é gerida por Swan, um malvado e pervertido barão do show business, com claras referências ao comportamento dos mafiosos da cidade e das indústrias do entretenimento. Ele busca por um novo sucesso quando ouve, ao piano, a música de Winslow Leach, um compositor que carrega consigo os traços de pureza a amor à arte musical.

O fato que define a história, no entanto, é Swan ser uma espécie de demônio. Ele promete fama e sucesso aos potenciais artistas que seduz, em troca de seus talentos, e acaba por os escravizar. Ao longo da história, no entanto, descobre-se que ele mesmo também era um signatário de um acordo: para se manter jovem para sempre, entregaria sua vida a buscar novos pactos e reassisti-los em vídeo diariamente, para se lembrar da dádiva adquirida.

A própria estrutura do enredo já entrega sua busca radical de mimetizar as histórias que referencia. De Palma irá desenvolver este lado maneirista em seus filmes, que dialoga intensamente com obras do passado, das quais bebe como inspiração, e quer deixar isto claro ao público. Lá estão as formas góticas do cinema alemão da década de 1920, bem como montagem e direção hitchcockianas, de cenas claras, que evidenciam o que a história quer contar.

Mesmo as atuações profundamente dramatizadas, quase artificiais, fazem referência ao teatro épico de Bertold Brecht, dramaturgo marxista alemão do período da república de Weimar, no entre-guerras. Era por meio do afastamento gerado entre obra e público, fruto da artificialidade da atuação ou da própria obra, que o dramaturgo atingia o que queria: evidenciar o aspecto não-real daquela peça. Para que assim a audiência se desse conta do aspecto crítico da história fictícia perante a realidade.

Phantom of the Paradise parece querer levar a audiência a entender o que é a indústria cultural norte-americana por esta via: metaforiza a perda da liberdade artística do compositor puro e ingênuo, em busca de fama, para os interesses da produção industrial, com a venda da alma de Winslow a Swan. E assim atualiza narrativas de séculos, que também ajudam a contar a história do mundo contemporâneo: agora com uma roupagem pós-moderna, difusa, que bebe de uma lista cada vez maior de referências e expele algo singular.

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