Pode-se dizer que o anúncio de taxação em 50% de exportações brasileiras para os EUA, realizado pelo presidente Donald Trump na última quarta-feira (9), foi telegrafado pela crescente subida de tom do mandatário norte-americano contra o Brasil em suas redes sociais, ao longo da semana passada.
Ficou claro também que a motivação da investida é, sobretudo, o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro, no inquérito que investiga sua participação na tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022, que se aproxima de uma decisão no Supremo Tribunal Federal.
Trump tenta, portanto, intimidar o Brasil, comercial e economicamente, em favor de um ex-presidente aliado, réu por golpismo. Para além disso, agora, seu leque de possibilidades de ataques fica restrito a eventuais sanções ao ministro Alexandre de Moraes.
Estes acontecimentos recentes parecem acelerar a consolidação de um eixo singular no debate político nacional. É fruto, sobretudo, de discussões que ganharam força no noticiário desde dezembro, a partir da proposta de reforma do Imposto de Renda pelo governo federal, e também no Projeto de Emenda à Constituição (PEC) 8/25, pelo fim da escala 6 por 1, de autoria da deputada Erika Hilton (PSOL-SP), que ganhou franca popularidade nas redes e nas ruas desde então.
Mesmo tratando de assuntos distintos, as pautas compartilham uma gênese: a insatisfação popular quanto ao histórico problema de desigualdade social e pobreza que marcam o Brasil. Mesmo o bolsonarismo é, em algum nível, também uma resposta a estes anseios, no entanto, em um espectro da extrema-direita. Neste recente caso, estabelecem-se pautas que o campo progressista domina.
A repercussão da derrubada do IOF pelo Congresso é um exemplo da força deste novo eixo de discussão. O ato do Parlamento de derrubar um decreto presidencial, inédito há pelo menos três décadas no Brasil, desde Collor, acalorou uma percepção de que o Legislativo defende interesses de uma elite econômica e política do país.
Isto gerou reações nas redes. Acuados, os presidentes da Câmara e do Senado, Hugo Motta e Davi Alcolumbre, diminuíram o tom, se encontraram novamente com os ministros Fernando Haddad e Gleisi Hoffmann ainda nesta semana, e ainda discutirão o assunto no STF, nesta terça-feira (15).
No âmbito da popularidade de pesquisas, o presidente Lula teve uma reação positiva em sua aprovação, que cresceu 1,9 ponto percentual em relação a maio. É uma interrupção em uma série histórica de quedas, registradas na pesquisa desde dezembro.
Tendo estes pontos em vista, e levando em consideração que assuntos em política não respeitam fronteiras e acabam por se misturar, parece válido conjecturar que a ação de Trump reforça um debate à esquerda, nacionalmente.
Lula agora tem um adversário político, o bolsonarismo, que se aliou a forças internacionais para atrapalhar um julgamento legítimo de tentativa de golpe de Estado no Brasil. Trump fez questão de ressaltar este fato, ao abrir sua carta tratando de Jair Bolsonaro.
Ficam algumas perguntas. Como isto influenciará, ao longo dos próximos meses, a percepção popular sobre Tarcísio de Freitas, principal postulante a candidato pela direita, que vestiu o boné MAGA de Trump em abril, e nesta quarta-feira repetiu a dose, comemorando a aplicação de tarifas unilaterais no Brasil?
Ainda em Tarcísio, pensando em 2026: como a vitória política de Eduardo Bolsonaro, evidente responsável pelo lobby junto a Trump, atrapalha sua busca por uma bênção do clã bolsonarista, visando concorrer à Presidência?
São perguntas que a história tratará de responder. E com estas respostas virá uma percepção mais sólida sobre quais ventos sopram na política brasileira atualmente.

