O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, passou parte da sua tarde desta segunda-feira (29) reunido com o ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado por organização criminosa e tentativa de golpe de Estado. Em suas palavras, foi “visitar um amigo” em “uma hora difícil”.
Após a conversa, em entrevista coletiva ao lado do senador Flávio Bolsonaro — o mais aberto da família a negociações — Tarcísio reforçou sua posição de candidato à reeleição no estado. Também voltou a falar em “pacificação” por meio de uma anistia legislativa aos golpistas — ampla, geral e irrestrita. Por fim, escolheu o pretérito perfeito para agradecer ao presidente, como chama, pela ajuda em sua trajetória política: “por tudo que fez”, “pelo que proporcionou”.
O tom enlutado da fala do governador ajuda a revelar parte do clima em torno da proposta de anistia. O tema passou a feder a queimado após manifestações de setores democráticos contra a pauta. Não à toa, sofreu tentativa de revitalização por Aécio Neves e Michel Temer, ambos em busca de protagonismo político, com o nome de PL da dosimetria.
Líderes do centrão, como o deputado Ciro Nogueira (PP), passaram a alardear a necessidade de coesão da direita em torno de um presidenciável capaz de competir com Lula nas próximas eleições, a cerca de um ano deste início de outubro de 2025. Ele fala em Tarcísio, mas reconhece a dificuldade da candidatura ser viável sem a benção de Jair.
A situação é de impasse na direita. Está cada vez mais evidente que nenhum dos membros da família Bolsonaro é hoje um candidato competitivo. O mais próximo desse perfil seria, de fato, o governador de São Paulo. No entanto, também é improvável que vejamos, ao longo dos próximos doze meses, o clã inteiro, de maneira coesa, apoiar uma candidatura exógena à sua linhagem.
Tarcísio também sabe disso. Crescem registros na imprensa acerca do desânimo do governador sobre o atual cenário político posto. Ele segue sendo alvo de ataques de Eduardo e Carlos, os filhos de oposição ao apoio de forças externas à família.
O governador terá até o início de abril de 2026 — portanto, mais de seis meses — para definir sua escolha e registrar candidatura em alguma instância de poder. No atual cenário, parece evidente que sua melhor opção é não trocar o certo pelo duvidoso e se manter em São Paulo. Ainda assim, permanece a chance de o clã mudar de ideia e acabar optando por uma conciliação em apoio a Tarcísio.
Diante disso, fica claro que essa indecisão pode custar caro à extrema-direita. Esse grupo político, alçado ao protagonismo em 2018 com a campanha de Jair e fortalecido no parlamento em 2022, ainda não foi testado nas urnas sem a presença de seu líder maior.
Em 2026, terá o desafio de repetir resultados sem a coesão de uma figura que centralize as discussões do espectro. Não haverá o símbolo carismático das motociatas, comícios, lives, dos vídeos para as redes sociais e de todo o trabalho eleitoral normalmente prestado pelo ex-presidente.
Sem liderança centralizada para comandar um grupo tão grande e diverso como a direita brasileira — que conseguiu gerar os parlamentos mais reacionários da Nova República — a própria estrutura política e eleitoral desse campo, como existe hoje, pode estar em risco.
Portanto, o vácuo deixado por Jair Bolsonaro após sua condenação, somado à relutância do clã em compor uma candidatura competitiva, pode afetar também os planos de dominação da Câmara e do Senado pela extrema-direita.
Não seria inusitado, de fato, se Jair trocasse a relevância do campo que ajudou a criar por mais uma oportunidade de manter o que resta — ou imagina restar — de seu poder.

