Como chuva que cai

Como alguém que chega com uma carta importante ao guichet depois das horas regulamentares: o guichet já está fechado.
Como alguém que quer advertir a cidade duma inundação: mas fala uma outra língua. Não o compreendem.
Como um mendigo que pela quinta vez bate a uma porta onde já recebeu esmola quatro vezes: ele tem fome pela quinta vez.
Como alguém cujo sangue lhe corre duma ferida e espera pelo médico: o sangue continua a correr.

Assim vimos nós e relatamos que em nós se cometem crimes.

Quando se relatou pela primeira vez que os nossos amigos eram abatidos pouco a pouco, houve um grito de horror. Então foram abatidos cem. Mas quando foram abatidos mil e a matança não tinha fim, espalhou-se o silêncio.

Quando o crime vem como a chuva cai, então já ninguém grita: alto!

Quando os delitos se amontoam, tornam-se invisíveis.
Quando as dores se tornam insuportáveis, já se não ouvem os gritos.
Também os gritos caem como a chuva de Verão.

Bertold Brecht – 1935

A Operação Contenção, nome dado à chacina promovida por agentes do Estado do Rio de Janeiro, que levou à morte mais de 120 pessoas, entre elas quatro policiais, reposicionou o debate público no país quanto à segurança pública.

Ela ocorreu dois dias após a reunião dos presidentes Lula e Donald Trump na Malásia, que criou um caminho civilizado para as discussões tarifárias e políticas entre os governos dos EUA e do Brasil.

De acordo com informações da segurança pública do Rio de Janeiro, a ação foi planejada por um ano, contou com 2.500 agentes e tinha como objetivo a prisão de líderes do Comando Vermelho na região dos complexos da Penha e do Alemão, na zona norte da cidade.

O saldo foi estampado nas capas dos principais jornais do país.

Cláudio Castro, governador e responsável pelo massacre, afirmou que a operação “foi um sucesso” e reclamou do que classificou como abandono do governo federal no combate ao crime organizado no Estado.

Sua fala contrasta com notícia desta sexta-feira (31), que aponta que nenhum dos 99 mortos identificados até então foi denunciado pelo Ministério Público na investigação que autorizou a operação. Setenta e oito tinham passagem pela polícia por crimes, mas não eram alvo da ação. Também repercutiu o fato de as dezenas de corpos encontrados apresentarem características de execução e tortura.

Governadores do espectro bolsonarista, como Romeu Zema, Tarcísio de Freitas e Ronaldo Caiado, cerraram fileiras na defesa do colega e logo anunciaram a criação do Consórcio da Paz, um ente interestadual que buscará organizar ações de segurança pública de maneira autônoma, mobilizando, segundo Jorginho Mello, governador de Santa Catarina, “contingente, inteligência e apoio financeiro”.

Meios de comunicação engoliram a visão da extrema-direita sobre o caso. Repercutiu-se, com ajuda de mapas, linhas e setas, a tática utilizada pelas forças policiais do Estado, como se, de fato, balizassem a lógica por trás da ação.

Já a reação popular, de imediato, foi positiva, segundo pesquisa AtlasIntel. Cinquenta e cinco por cento dos entrevistados da capital julgaram a operação bem-sucedida, enquanto, no Estado, o número chegou a 62%.

Alguns comentaristas, com acesso a pesquisas não tornadas públicas, comentaram que há um recorte socioeconômico no caso: pessoas de maior poder aquisitivo tenderam a ver a operação com bons olhos, enquanto grupos de menor renda tiveram uma percepção oposta.

Internacionalmente, o caso e suas repercussões inseriram o Brasil e a extrema-direita nacional no eixo de atuação que reúne países como El Salvador, Israel e os EUA de Donald Trump: nações que, sob governos extremistas, vêm sistematicamente adotando um enfrentamento antidemocrático, ao arrepio da lei, da criminalidade em seus territórios.

Não à toa, a comunicação que defende a operação tenta emplacar a alcunha de narcoterrorismo ao crime organizado. É a chave institucional que o presidente norte-americano precisaria para intervir no Brasil, como vem fazendo com Colômbia e Venezuela.

Esse cenário ilustra, em primeiro lugar, o atual estado de importância que as regras democráticas têm na visão de mundo do brasileiro. Estamos menos sensíveis a ações que atropelam a lei, sobretudo quando o assunto é segurança pública.

Trata-se de uma cristalização da estética punitivista, do “bandido bom é bandido morto”, em forma de ação do Estado. Não é uma dinâmica nova, sobretudo no Rio de Janeiro. Porém, como nunca antes na Nova República, é esta a ética que pauta o debate. A repercussão se preocupa em classificar a eficácia da chacina, não sua legalidade.

Olhamos para o caso tentando decifrar se ele resolveu o problema ou traçou o caminho para tal, sem levar em consideração as extensas falas de especialistas, que apontam para uma solução na construção de políticas públicas nas favelas, da ocupação do espaço pelo Estado, trazendo cidadania.

O debate público parece ter engolido a ideia de uma solução mais fácil e violenta. O grande problema é que, no ventre desse discurso, mora o fascismo. Quando damos verniz de legitimidade à resposta mortal, como se fosse uma via civilizada, democrática e constitucional, abre-se o flanco para que, de fato, barbaridades como esta se tornem regra, método, parte do sistema.

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