Coisas fora da ordem, da nova ordem mundial

Passadas algumas semanas desde que o presidente norte-americano Donald Trump voltou seu canhão midiático e tarifário contra o Brasil, no último dia 12, certos espantalhos já caíram por terra.

O peso e a seriedade das ameaças feitas pelo governo dos EUA, em clara chantagem pelo encerramento do inquérito que julga a tentativa de golpe de Estado perpetrado por Jair Bolsonaro e sua cúpula militar, são inegáveis. Contudo, prevaleceu a força de quem detém poder econômico, e parte relevante das exportações brasileiras se manteve sem acréscimo de tarifas. A realidade se impôs.

Sobraram interesses mais sólidos, reais. A diplomacia norte-americana logo acenou para as terras raras brasileiras — ativos estratégicos centrais na cadeia de produção global, indispensáveis para a fabricação de motores, turbinas, chips de computação e até mísseis.

Neste caso, a geografia favorece o território brasileiro, que concentra uma porcentagem significativa das reservas conhecidas desses minerais, ficando atrás apenas da China.

O gigante asiático, inclusive, vem frustrando os planos de imposição de uma guerra comercial dos EUA pelo sufocamento da oferta dessas terras raras à indústria ocidental. Durante semanas, a mídia internacional noticiou a tensão em montadoras norte-americanas e europeias, que chegaram a pausar linhas inteiras de produção diante da escassez desse insumo.

A situação foi apaziguada com uma espécie de acordo comercial entre EUA e China no fim de junho. Desde então, o governo Trump reduziu drasticamente o tom em relação a Pequim. Para além do discurso, retirou restrições a estudantes chineses em universidades norte-americanas e vem afrouxando limites à exportação de chips de inteligência artificial para a potência asiática.

Com isso, as atenções de Washington se voltaram a outras nações, sobretudo alguns fundadores dos BRICS, como Brasil e Índia. A outra potência da Ásia vem enfrentando uma escalada nas tensões com os EUA após resistir à pressão de Trump pelo fim da comercialização de petróleo com a Rússia — ativo energético de primeira grandeza para a nação mais populosa do mundo.

O problema da estratégia de Trump, nessa segunda fase de ataques a outras nações dos BRICS além de Rússia, China e Irã — já em conflitos históricos com os EUA — é que sua chantagem não vem gerando resultados práticos.

O mandatário norte-americano pode até ter o poder de impor tarifas e causar danos às economias de Brasil e Índia, mas dificilmente as levará à ruína. Está cada vez mais claro que suas ameaças não são tão graves e que há espaço para a reacomodação do comércio internacional. Portanto, ao atacar esses países em desenvolvimento, Trump acaba por acelerar integrações multilaterais, reforçar a tendência de desdolarização da economia e jogar contra a própria hegemonia norte-americana.

No caso do Brasil, cresce o interesse de setores produtivos pela concretização da ferrovia bioceânica — projeto que conectará portos do Atlântico e do Pacífico, no Brasil e no Peru, reduzindo custos e tempo de escoamento da produção continental.

O projeto político do trumpismo, ao tentar corrigir as contradições econômicas e políticas dos EUA, termina por escancará-las ainda mais aos olhos do mundo. Parafraseando Caetano Veloso, que em 1991 já cantava sobre os rumos do planeta na nova década: há muitas coisas fora da ordem — da nova ordem mundial.

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