Isto aqui ô, ô
É um pouquinho de Brasil iá, iá
Deste Brasil que canta e é feliz
Feliz, feliz
É também um pouco de uma raça
Que não tem medo de fumaça
E não se entrega não
“Isto aqui, o que é?”, de Ary Barroso
A Casa Branca anunciou, nesta quarta-feira (30), a imposição de tarifas adicionais de 40% a exportações brasileiras. Somadas aos 10% já definidos em abril, chega-se ao número alardeado pelo presidente dos EUA ao longo das últimas semanas: 50%.
Porém, contudo, todavia, entretanto — e como é de costume no segundo mandato de Donald Trump —, o tarifaço chegou enfraquecido. Mais de 600 exceções a exportações foram adicionadas na ordem executiva, divulgada no período da tarde desta quarta.
De acordo com órgãos de comércio exterior como a Câmara Americana de Comércio para o Brasil, a Amcham, o volume de exceções chega a 43,4% do montante de exportações nacionais rumo aos EUA em 2024. Representam um resultado comercial de 18,4 bilhões de dólares no período.
Estão inclusos a Embraer, os exportadores de suco de laranja, castanhas, o petróleo e outras fontes de energia, o minério. Ficam de fora o café, a carne bovina, frutas, têxteis e outras mercadorias.
Trata-se de um cenário temerário, ilegal do ponto de vista do comércio do exterior e da própria Constituição dos EUA. Porém, sensivelmente menos violento do que a pintura feita pelo bolsonarismo, grupo aliado — de primeira prateleira — das investidas de guerra comercial contra o Brasil.
Todo este desenrolar de fatos ofuscou outro anúncio da Casa Branca, que sancionou o ministro do STF Alexandre de Moraes sob a Lei Magnitsky. A legislação, de 2012, visa punir “corruptos” e “ditadores” com bloqueios a diversos serviços financeiros norte-americanos, como cartões de crédito e contas em banco do país, ou mesmo o acesso a imóveis e outros bens nos EUA.
Esta quarta-feira, portanto, fica marcada como o dia em que tal lei foi utilizada para sabotar um julgamento de tentativa de golpe de Estado em um país terceiro, que transcorre dentro da normalidade de suas leis.
As duas investidas contra a soberania nacional — talvez as mais graves desde o golpe de 1964, patrocinado pelo governo dos EUA — têm alcances limitados.
Do lado econômico, o teatro do tarifaço devastador até gerou certo capital político para o deputado federal Eduardo Bolsonaro, hoje lobista em Washington. Mas provavelmente não ferirá de morte o governo Lula no campo econômico, como se imaginara. As sanções a Moraes ou a outros ministros do STF são ainda mais simbólicas.
Não há sequer indícios de recuo por parte da mais alta instância do Judiciário no âmbito do julgamento da tentativa de golpe de Estado.
No Legislativo, crescem relatos na mídia que cobre Brasília sobre a estafa gerada pela família Bolsonaro nestes momentos derradeiros do julgamento. Eduardo vem subindo o tom de ameaças contra os presidentes da Câmara e do Senado, Hugo Motta e Davi Alcolumbre, respectivamente.
Portanto, um futuro com Jair Bolsonaro preso, silenciado de comentários políticos que se tornam pauta, é cada vez mais sólido e previsível. Resta saber a força que seu nome continuará tendo no eleitorado fiel à sua impossível candidatura à presidência em 2026 — a principal pedra no sapato da direita em busca de um nome viável e competitivo contra o presidente Lula.
Lideranças como os governadores Tarcísio de Freitas, Romeu Zema e Ronaldo Caiado, sempre vocais quanto aos temas nacionais, estão mais calados que o normal. Talvez se deva ao peso das críticas do empresariado de seus estados, afetados pelo tarifaço.
O governador de São Paulo, por exemplo, foi alvo de críticas severas da Folha de S. Paulo e do Estadão em editoriais, por sua subserviência ao projeto bolsonarista de implosão da diplomacia entre os EUA e o Brasil.
Ele parece tentar se equilibrar entre a atenção aos interesses da elite empresarial de São Paulo, grupo mais afetado pelos ataques comerciais norte-americanos, e o eleitorado dos Bolsonaro, que se alimenta e se move por meio de pautas ideologizadas e extremistas, que dialogam menos com o restante da população.
Esta conjuntura parece seguir favorecendo, portanto, os debates postos pela esquerda nacional. O presidente Lula foi jogado no colo da pauta patriótica. Diariamente, sua oposição tem fornecido materiais infindáveis de atos subservientes, como uma bandeira do movimento MAGA, de Trump, sendo aberta na Câmara dos Deputados, como ato de apoio ao tarifaço.
Talvez não tenham visto as pesquisas que demonstram, com grande folga, como a população brasileira rejeita a política de Trump. Tanto em seu aspecto global, já medido desde o início de seu segundo governo, quanto nos ataques ao Brasil, registrados nas últimas semanas.
Uma resistência que lembra a raça que não tem medo de fumaça/ e não se entrega não, de Ary Barroso.
Para Lula, fica cada vez mais fácil marcar sua oposição como entreguista e vassala dos interesses dos EUA. Evidenciando o óbvio: as ações de Trump são um grande tiro no pé do bolsonarismo. Provavelmente o último grande ato desse grupo político na história nacional.

