Lula discursa sobre a realidade do mundo na ONU; Trump cria o contraste

Os discursos do presidente Lula e de seu homônimo norte-americano, Donald Trump, na abertura da 80ª Assembleia Geral da ONU serviram de raro contraste de visões de mundo.

Em menos de duas horas, na manhã desta terça-feira, registraram-se para a história dois polos de percepções políticas que mal parecem dividir o mesmo planeta.

Lula ocupou sua fala, de pouco menos de vinte minutos, com as tragédias da atualidade: reafirmou posição diante do genocídio do povo palestino, alertou para a urgência do tema climático e convocou os líderes presentes a resistirem contra arbitrariedades e contra a imposição da força bruta no cenário internacional. Foi aplaudido em sete oportunidades.

Em nenhum momento citou nominalmente Donald Trump. Mas, com sutileza, deixou claro a quem se endereçavam suas críticas.

O presidente dos EUA falou na sequência. Abriu sua intervenção como quem discursava em uma reunião de condomínio: criticou o funcionamento do teleprompter à sua frente e as escadas rolantes do prédio da organização.

Após as frívolas observações sobre manutenção do edifício, enfileirou uma série de autoelogios sobre seus oito meses de administração e discursou voltado a seu público doméstico. Nos tópicos internacionais, atacou a economia verde, os esforços de contenção das mudanças climáticas e, sobretudo, a imigração. Defendeu uma política restritiva e dura no controle migratório, em conjunto com uma infraestrutura energética baseada em combustíveis fósseis.

Foi aplaudido em uma oportunidade, quando defendeu a entrega dos israelenses mantidos reféns pelo Hamas em Gaza.

E por fim, após muitas idas e vindas entre os temas que decidiu abordar na fala, Trump acenou politicamente a Lula, relatando ter tido uma rápida, porém boa, interação com o mandatário brasileiro.

Encaminharam inclusive uma reunião prevista para a próxima semana. Um daqueles acasos — fruto de um improviso de Trump — que tornam a política uma ciência imprevisível: como imaginar que, de rompante, aquela figura teria atitude tão simpática?

A jornalista Mariana Sanches, colunista do UOL, destacou que a fala surpreendeu ambas as delegações diplomáticas. Por outro lado, há quem veja o movimento como parte de uma estratégia para fisgar Lula em um encontro constrangedor, a exemplo do que viveram o presidente sul-africano Cyril Ramaphosa e o líder ucraniano Volodymyr Zelensky em visitas à Casa Branca no primeiro semestre. Parece cedo para cravar as consequências políticas de um encontro sem agenda clara nem previsibilidade das reações de Trump.

O que a história desta terça-feira registra, na realidade, é o estado das discussões políticas da contemporaneidade. As duas visões de mundo expostas no púlpito da ONU não discordam apenas nas nuances do debate — elas divergem na própria realidade material estabelecida.

Replica-se, portanto, a lógica das plataformas digitais, que reforçam em seus usuários suas visões de mundo, a despeito das evidências materiais que provam o contrário. Neste caso, ficou claro que o discurso mais próximo da realidade — em suas contradições e conflitos da atualidade — é o do presidente que pertence à periferia do mundo.

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